Entre um cochilo e outro, nesse intervalo em que a alma cochicha e o corpo ainda descansa, senti alguém se acomodar ao meu lado no sofá.
Não me assustei. Apenas pensei: é a Yarin. Ela costuma chegar assim, sem pedir licença, como quem já pertence ao lugar.
Mas havia algo diferente naquele aconchego. Algo que não era só pelos. Antes que eu pudesse organizar o pensamento, veio a imagem do meu irmão — inteira, viva, quase travessa.
Sorri. E falei com ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Contei sobre a sensação curiosa de sentir companhia em meio ao silêncio. Ele me ouviu com aquele sorriso meio amarelo, a voz arrastadinha que sempre carregava um riso escondido. Agachado ao meu lado, passou a mão nos meus cabelos, abraçou-me com um braço só — do jeito dele, econômico e certeiro — e disse, sem cerimônia alguma, que era ele.
Não sei exatamente como reagi. Ali, a lógica parecia ter tirado férias. Conversamos. O tempo não tinha pressa. Até que, em algum ponto, a razão resolveu se manifestar e eu lhe disse, quase em tom de repreensão carinhosa, que ele já não estava entre nós… que não podia simplesmente aparecer e me abraçar assim.
Ele respondeu como sempre respondia às minhas tentativas de ser séria: sorriu. Um sorriso maroto, desses que não pedem permissão nem explicação. Mandou-me um beijo no ar e, sem alarde, desapareceu — como quem diz calma, tudo está em ordem.
Foi então que despertei.
Com o coração leve, evoquei os espíritos de luz, pedindo que continuassem a guiá-lo em sua caminhada. E agradeci. Agradeci pela visita inesperada, pelo carinho fora de agenda e por esse lembrete silencioso de que alguns laços não reconhecem fronteiras — nem as do tempo, nem as do mundo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário